Thursday, January 08, 2015

A fábrica da inveja

Rodrigo Constantino

“Todos gostam do sucesso, mas detestam as pessoas bem-sucedidas.” (John McEnroe)
A lei moral de que o justo é tirar de cada um de acordo com sua habilidade e dar para cada um de acordo com sua necessidade corrompeu milhões de corações ao longo dos anos, e ainda o faz. No entanto, nada poderia ser mais imoral, injusto e ineficaz que este conceito. A novelista Ayn Rand fez um dos melhores retratos das conseqüências dessa máxima colocada em prática, no seu livro Atlas Shrugged, assim como expôs com perfeição os reais motivadores de seus defensores.
Na ficção, infelizmente nada distante da realidade de muitos, uma fábrica de motores decidiu votar um plano onde todos os funcionários iriam trabalhar de acordo com suas habilidades, mas o pagamento seria de acordo com as necessidades. O plano objetivava um nobre ideal de justiça. Era chegada a hora de acabar com a ganância individual, com a busca pelo lucro, com a competição selvagem. Todos os trabalhadores formariam uma grande família, e o bem coletivo seria colocado à frente dos interesses particulares.
Um ex-operário relata como o plano funcionou. Tente colocar água num tanque onde há um duto no fundo drenando o líquido mais rápido do que você é capaz de enchê-lo, e quanto mais você joga água dentro, maior fica o duto. Quanto mais você trabalha, mais lhe é demandado, até que suas horas trabalhadas multiplicam-se para que seu vizinho tenha sua refeição diária, a esposa dele tenha a operação necessária, a mãe tenha a cadeira de rodas, o tio tenha a camiseta, o sobrinho a escola etc. Até pelo bebê que ainda não veio, por todos à sua volta, mais e mais é demandado de você, sempre em nome da “família”. A cada um pela necessidade, de cada um pela habilidade.
Foi necessária apenas uma reunião para perceberem que todos haviam se transformado em vagabundos pedindo esmolas, pois ninguém poderia reclamar um pagamento justo, não havia direitos e salários, seu trabalho não lhes pertencia, mas sim à “família”, e nada era devido em troca, sendo o único direito sobre ela a “necessidade”. Cada um tinha que demandar tudo, alegar miséria, pois sua miséria, não seu trabalho, tinha se tornado a moeda de troca. Ninguém podia mais nada.
Afinal, ninguém era pago pelo trabalho, pelo valor gerado, mas apenas de acordo com a “necessidade”. Em pouco tempo, sendo a necessidade algo subjetivo, todos passam a necessitar de tudo, e a “família” experimenta enorme crescimento de ressentimento mútuo, trapaças, mentiras. A cirurgia da mãe do vizinho passa a ser vista com desconfiança, pois é seu trabalho que paga a conta. Cada nova demanda através do apelo de “necessidade” gera mais intrigas e brigas.
Bebês eram o único item de produção em alta, pois ninguém tinha que se preocupar com o custo dos cuidados com um filho, já que a conta recaía sobre a “família”. Além disto, não havia muito que fazer, pois a diversão era vista como algo totalmente supérfluo, um dos primeiros itens a ser cortado em nome da “necessidade” de todos. A diversão passa a ser vista quase como um pecado. Um dos meios mais fáceis de conseguir um aumento no pagamento era justamente pedir permissão para ter filhos, ou alegar alguma doença grave.
Não há meio mais seguro de destruir um homem que forçá-lo a um mecanismo de incentivo onde seu objetivo passa a ser não fazer o seu melhor, onde sua luta é por fazer um trabalho ruim, dia após dia. Isto irá acabar com ele mais rápido que qualquer bebida o faria, ou o ócio. A acusação mais temida era a de ser mais habilidoso que o demonstrado, pois sua habilidade era como uma hipoteca que os outros tinham sobre você. Mas para quê alguém iria querer ser mais habilidoso, se seus ganhos estavam limitados pela “necessidade”, e suas habilidades significariam apenas mais trabalho pesado para que outros ficassem com os benefícios?
A explicação sobre os motivos que levaram tal plano a ser aprovado está na passagem em que o ex-operário diz que não havia um único homem votando que não pensasse que, sob tais regras, poderia avançar sobre os lucros de outros homens mais habilidosos que ele. Não havia quem, rico ou esperto o suficiente, não achasse que outro seria mais rico ou mais esperto, e que tal plano lhe daria uma parcela de sua maior fortuna ou cérebro.
O trabalhador que gostava da idéia de que sua “necessidade” lhe daria o direito a ter o carro que seu chefe tinha, esquecia que todos os vagabundos do mundo poderiam demandar aquilo que ele tinha conquistado pelo seu trabalho. Este era o verdadeiro motivo para a aprovação deste plano igualitário, mas ninguém gostava de refletir sobre o assunto, e, quanto menos gostavam da idéia, mais alto gritavam sobre o amor pelo bem geral.
A fábrica continuou perdendo os melhores homens, pois os habilidosos “egoístas” iam fugindo como podiam para lugares onde pudessem trabalhar pelos próprios interesses, sem o fardo de sustentar os parasitas. Em pouco tempo, não havia mais nada além dos homens “necessitados”, e já não havia um único homem de habilidade. E a fábrica teve que começar a apelar para as suas necessidades, tentando não perder todos os clientes, pois seus produtos não mais eram competitivos ou eficientes.
Mas qual o bem que faz aos passageiros de um avião um motor que falha em pleno vôo? Se um produto for comprado não pelo seu mérito, mas por causa da necessidade dos empregados da fábrica ineficiente, seria isto correto, bom, ou a coisa moral a ser feita pelo dono da empresa aérea? Se um cirurgião compra um equipamento não pela sua qualidade, mas pela necessidade dos funcionários do produtor, seria correto com seu paciente?
No entanto, é esta a lei moral pregada pelos vários líderes, intelectuais e filósofos no mundo. A cada um pela necessidade, de cada um pela capacidade. A fábrica da inveja, na brilhante novela de Ayn Rand, faliu, virou uma fábrica de miséria, assim como os países socialistas que tentaram adotar a mesma máxima de vida.

Tuesday, December 30, 2014

Pais e filhos em conflito

Quem não defende a ética e a honestidade? Bradamos orgulhosos o quanto somos honestos, confiáveis e solidários. Nossos filhos dizem a mesma coisa a respeito de si mesmos evocando o exemplo dos pais, pessoas impolutas e incorruptíveis. Todavia, esse quadro róseo começa a se modificar quando há algum interesse em jogo. E quem vive desinteressadamente? Não há quem não viva em busca de atender às suas necessidades, os seus interesses. E quanto maior o prêmio em jogo, maior a ânsia em ganhá-lo, despertando em nós o desejo incontrolável de abocanhar a recompensa. Como muitos alimentam o mesmo objetivo, instaura-se a disputa com o jogo ultrapassando os limites da ética, quanto mais acirrada vai se tornando. O processo vai se afunilando e trazendo a tona o espírito selvagem da guerra, meio adormecido em nossa memória ancestral.  A sociedade civiliza-se, mas os instintos primários estão ali à espreita, prontos para vir a tona a um sinal de alerta.

Racionalmente queremos agir com espírito ético, desinteressado e altruísta. Ocorre que agimos de acordo com nossas emoções, vale dizer, irracionalmente. Somos guiados por nossas crenças, por nossos desejos, por aquilo que abala nossos corações, por mais absurda que seja essa motivação.

Todos os valores foram postos em xeque quando os meninos passaram no vestibular e ingressaram na faculdade. A princípio aquilo que todos os pais e filhos almejam como o ápice da carreira estudantil, mostrou-se com o tempo, um cavalo de tróia. As faculdades, com raríssimas exceções, foram transformadas pelo governo em centros de doutrinação marxista. Confiávamos, todavia, nos valores democráticos a eles transmitidos, pois, como se sabe, todo regime marxista é ditatorial como demonstram os países que abraçaram essa ideologia. Eles resistiriam, pensávamos nós. Mas não contávamos com a poderosa influência do grupo ao qual foram inseridos.

Muito de nossos valores são influenciados pelo meio onde vivemos. E o grupo majoritário é quem impõe a base comportamental de seus integrantes. Poucos resistem já que o ser humano é um animal gregário e quer ser bem aceito no rebanho. Como uma cabeça jovem ainda em formação poderia resistir a uma doutrinação maciça a qual são submetidos na faculdade? Neófitos no ambiente acadêmico, mal se dão conta que estão sendo manipulados para engrossar as fileiras do partido dominante hoje na política brasileira. Com essa estratégia, o PT vai completando 16 anos no poder.

E todo aquele edifício laboriosamente construído nos valores da ética, da honestidade e na livre expressão do pensamento, virtudes outrora tão decantadas foram ruindo assim que o ministro do STF Joaquim Barbosa começou a atuar no julgamento do mensalão. Com enorme desgosto vimos nossos garotos atacarem a honra, a decência, a integridade, enfim, todo o cabedal de iniqüidades que foram insuflados pelo governo de plantão em sua tarefa de formação da militância obediente ao sinal de comando do comitê central do partido. Depois veio o Petrolão e nossos filhos, aqueles pimpolhos cheios de ideais nobres e meritórios, tão orgulhosos da honestidade exemplarmente repassada por seus pais passaram a chafurdar gostosamente no lamaçal, como típicos militantes petistas que são. E diante das provas cabais da roubalheira bradam enfezados: “todos roubam, não escapa ninguém.”

De repente papai e mamãe, muito mais o papai vez que mamãe não quer saber de política, viraram figuras obsoletas, retrógradas, burgueses desprezíveis. O papi assinante da Veja então tem de ser encaminhado para o limbo onde sua voz não seja ouvida, para que não seja motivo de vergonha diante do grupo de militantes. E o papi constata que ser velho é ser irrelevante. Se manifestar um pouco que seja, algum sintoma de senilidade, real ou não, será levado ao asilo. Com profundo desgosto constata que os papéis foram invertidos; em vez de se orgulhar da educação dada aos filhos, eles é que tem motivos ou não de se orgulhar dos pais que têm, segundo critérios por eles impostos.
Por que o papi insiste em falar de política? Seria tão bom se ficasse quietinho acessando a internet, assistindo seus filmes, lendo seus livros, bebendo sua cervejinha com os amigos. Será que ele nunca vai ceder? Assim não vai dar.






Thursday, December 18, 2014

69 doses de Shakespeare





Publicado no Brasil pela editora Sextante, “Shakespeare Para Apaixonados” é um pequeno guia que reúne aforismos e citações do poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare. No livro, cada capítulo é iniciado por uma citação de Shakespeare refletindo sobre ciúme, paixão, romance, insegurança, desejo e amizade, seguido de uma interpretação atual feita por Allan Percy, autor da compilação.
Considerado maior escritor de língua inglesa e o mais influente dramaturgo da história, William Shakespeare nasceu em 23 de abril de 1564, na pequena cidade inglesa de Stratford-Avon. Terceiro filho de um rico comerciante, pouco se sabe de sua infância e juventude, mas especula-se que tenha frequentado a escola primária Rei Edward VI, na qual teria aprendido literatura e latim.
Em 1582, aos 18 anos, casou-se com Anne Hathaway. O casal teve uma filha, Susanna, e dois anos depois, os gêmeos Hamnet e Judith. Não se sabe ao certo quando Shakespeare começou a escrever, mas alusões contemporâneas e registros de performances mostram que várias de suas peças foram representadas em Londres a partir de 1952.
Suas obras conhecidas totalizam 38 peças, 154 sonetos, dois longos poemas narrativos, e uma centena de poemas curtos, embora biógrafos sugiram que o número exato ainda é desconhecido. É o autor mais traduzido da história e suas obras são encenadas mais do que as de qualquer outro dramaturgo. “Destacam-se pela grandeza poética da linguagem, pela profundidade filosófica e pela complexa caracterização dos personagens.” Muitos de seus textos e temas, especialmente os do teatro, permanecem vivos mais de quatro séculos depois, sendo revisitados com frequência pelo teatro, televisão, cinema e literatura. Entre suas obras mais conhecidas estão “Romeu e Julieta”, “Júlio César”, “Macbeth”, “Rei Lear”, “Otelo, o Mouro de Veneza”, “Sonho de uma Noite de Verão”, “A Megera Domada” e Hamlet, que possui uma das frases mais conhecidas da língua inglesa: To be or not to be: that’s the question (Ser ou não ser, eis a questão). Shakespeare morreu em Stratford em 23 de abril de 1616.
Neste post, reunimos os 69 aforismos, dos 72 compilados por Allan Percy.

1 — Se você não se lembra do menor sinal de loucura que cometeu por amor, você não amou.
2 — É melhor ser rei de seu silêncio do que escravo de suas palavras.
3 — Guardar algo que me ajude a lembrar de você seria admitir que posso esquecê-lo.
4 — Qualquer um pode dominar o sofrimento, exceto aquele que o sente.
5 — Nós somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos; nossa curta vida está cercada pelo sono.
6 — Minha bondade é tão ilimitada quanto o mar, e tão profundo como este é o meu amor. Quanto mais te dou, mais tenho, pois ambos são infinitos.
7 — Na amizade e no amor se é mais feliz com a ignorância do que com o saber.
8 — Tão impossível é avivar o lume com neve quanto apagar o fogo do amor com palavras.
9 — Duvides de que as estrelas sejam fogo, duvides de que o Sol se mova, duvides de que a verdade seja mentira, mas não duvides jamais de que te amo.
10 — O amor alivia, assim como o brilho do sol após a chuva.
11 — Não tenha medo da grandeza. Alguns nascem grandes, alguns obtêm grandeza, a alguns a grandeza é imposta e em outros a grandeza fica exagerada.
12 — O amor, cego que é, impede os amantes de ver as agradáveis loucuras que cometem.
13 — Não jure pela Lua, que é inconstante e muda todos os meses em sua órbita circular, a menos que o seu amor seja igualmente instável.
14 — Quanto mais te odeio, mais me persegues.
15 — Oh, amor poderoso, que às vezes faz da besta um homem, e outras, de um homem, uma besta!
16 — Tenho medo é do seu medo.
17 — O amor é uma fumaça formada pelo vapor dos suspiros. Alentado, é um fogo a brilhar nos olhos dos apaixonados. Revolto, é um mar nutrido pelas lágrimas dos amantes. Que mais será? O amor é uma loucura sensata, um fel que adoça, uma doçura que amarga.
18 — Um homem que não se alimenta de seus sonhos envelhece cedo.
19 — Nossas dúvidas são traidoras que muitas vezes nos fazem perder o bem que poderíamos ganhar.
20 — Quem muito se aproxima do Sol com asas de ouro as derrete.
21 — Com alegria e risadas, deixem as típicas rugas da velhice aparecer.
22 — Seja o que for que você pense, creio que é melhor dizê-lo com boas palavras.
23 — Minha coroa está no coração, não na minha cabeça.
24 — Não existe nada bom nem mau; é o pensamento humano que faz com que pareça de uma forma ou de outra.
25 — Em nossas loucas tentativas, renunciamos ao que somos pelo que esperamos ser.
26 — É mais fácil obter o que se deseja com um sorriso do que com a ponta de uma espada.
27 — Não suje a fonte em que matou sua sede.
28 — O amor que nos entregam se o pedimos é bom, mas o amor que nos dão sem precisarmos pedir é ainda melhor.
29 — Aos infelizes resta apenas um remédio: a esperança.
30 — Mostre-me um homem que não seja escravo das suas paixões.
31 — Os improvisos são melhores quando são preparados.
32 — A juventude, ainda que ninguém a combata, encontra em si mesma seu próprio inimigo.
33 — O aspecto exterior manifesta muitas vezes a condição interior do homem.
34 — Minhas palavras sobem voando, meus pensamentos ficam aqui embaixo; palavras sem pensamentos nunca chegam ao céu.
35 — Se dois montam num cavalo, um deve ir atrás.
36 — É um amor bem pobre aquele que se pode medir.
37 — Em um minuto há muitos dias.
38 — A fortuna chega em alguns barcos que não são guiados.
39 — Ninguém admira a pressa, a não ser o negligente.
40 — O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui.
41 — Para celebrar os ritos amorosos, aos amantes basta a luz de sua própria beleza, e, como o amor é cego, o que lhes cai melhor é a noite.
42 — Nosso destino não está nas estrelas, mas em nós mesmos.
43 — Assuma uma virtude se não a tiver.
44 — O curso do amor verdadeiro nunca fluiu suavemente.
45 — Se a música é o alimento do amor, não parem de tocar.
46 — Inquieta é a cabeça que carrega uma coroa.
47 — Sabemos o que somos, mas não sabemos o que podemos ser.
48 — O lunático, o amante e o poeta são compostos tão somente de imaginação.
49 — Por você abandonei meus estudos, perdi tempo, desafiei a razão, desprezei o mundo; com fantasias minha inteligência ficou debilitada, com pensamentos se adoentou meu coração.
50 — Quando não houver nada a perder, arrisque tudo.
51 — Um sentimento moderado revela amor profundo; um excessivo indica insensatez.
52 — O amor é muito jovem para saber o que é consciência.
53 — Embora eu não seja piloto, se estivesses tão distante de mim como as praias do mais longínquo mar, te encontraria, navegando até achar esse precioso tesouro.
54 — Fale baixo ao falar de amor.
55 — Deixe-me confessar que somos dois, embora o nosso amor seja indivisível.
56 — A ti vigio, enquanto ao longe despertas, tão distante de mim e de outros, tão perto.
57 — Preciso saber de você a cada dia e a cada hora!
58 — Dispomos da razão para conter nossos loucos impulsos, nossas ferroadas carnais, nossa luxúria desenfreada, o que creio ser surto e fruto do que chamamos de amor.
59 — Não me atrevo a oferecer o que desejo dar, tampouco a tomar o que me fará morrer, mas quanto mais procuro encobrir meu sentir, maior meu amor se mostra.
60 — Tenha cuidado com o ciúme: é um monstro de olhos verdes que debocha do alimento do qual se nutre.
61 — A ternura é o prelúdio das lágrimas. Que melhor prova de lealdade do que essa que traz o pranto aos olhos?
62 — Como um calor substitui outro calor, ou um prego pode tirar outro prego, assim a lembrança do meu antigo amor foi esquecida graças a outro amor.
63 — Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor.
64 — Entonarei minha voz grave para poder niná-los com a doçura de uma terna pomba. Rugirei como se fosse um rouxinol.
65 — Se não fosse por meu amor, o dia seria noite.
66 — Não tenho nem a melancolia do sábio, que é emulada, nem a do músico, que é fantástica, nem a do cortesão, que é orgulhosa, nem a do soldado, que é ambiciosa, nem a do jurista, que é política, nem a da dama, que é bela, nem a do amante, que é a soma de todas elas.
67 — Pobres são aqueles que carecem de paciência!
68 — Falar não é fazer, por mais que haja uma boa intenção. As palavras não são fatos.
69 — A Idade de Ouro está diante de nós, não atrás.

Wednesday, December 17, 2014

"Um lugar bom de viver" - ou "para se viver"?


'BH é a melhor capital para (se?) viver': esqueça o bairrismo, a dúvida é gramatical
‘BH é a melhor capital para (se?) viver’: esqueça o bairrismo, a dúvida é gramatical

“Prezado Sérgio: por favor, desfaça uma dúvida que sempre me assalta. O que é o certo: ‘Belo Horizonte é a melhor capital para se viver’ ou ‘Belo Horizonte é a melhor capital para viver’? O mesmo se dá em: ‘As dez melhores empresas para se trabalhar’ ou ‘As dez melhores empresas para trabalhar’? Obrigado.” (Hélvio Brito)
A dúvida de Hélvio nos lança num fogo cruzado dos mais interessantes, entre a velha gramática normativa e a nova linguística.
Segundo a gramática normativa, dedicada à perpetuação de um sistema de regras fixado há tempos e com ambição de validade para todo o universo da lusofonia, a única construção correta nesses casos é aquela sem o pronome “se”.
Portanto, para usar a língua-padrão e se pôr a salvo de críticas conservadoras, o falante deve optar por “Belo Horizonte é a melhor capital para viver” (o bairrismo de Hélvio merece debate à parte, claro) e “As dez melhores empresas para trabalhar”. O argumento é o de que o verbo no infinitivo já é impessoal, dispensando assim o reforço da indeterminação do sujeito representado pelo pronome “se”.
A linguística, mais interessada em flagrar e compreender as mudanças na língua enquanto elas inevitavelmente ocorrem, conta uma história diferente. Com olhar atento ao que as pessoas de fato falam (e não só as que “falam errado”, como sugere uma visão preconceituosa, mas também aquelas com alto nível de educação formal), mostra que no português brasileiro, inclusive entre falantes cultos, faz tempo que as construções com o “se” antes do verbo no infinitivo são consideradas normais.
Em seu livro “Português ou brasileiro” – uma prova de que a argumentação embasada lhe cai melhor do que o ativismo político simplista em que às vezes se perde –, o linguista Marcos Bagno colhe na imprensa e na literatura (de Clarice Lispector) fartos exemplos do uso do “se” antes de verbo no infinitivo para concluir que, “na sintaxe brasileira, aumenta progressivamente a tendência a não se deixar nenhum verbo sozinho, desacompanhado de seu sujeito, mesmo quando esse verbo é um infinitivo tradicionalmente classificado de impessoal”.
A conclusão me parece perspicaz e ajuda a entender por que uma antologia de nosso maior cronista vivo, Luis Fernando Verissimo, organizada e lançada em 2001 por uma futura integrante da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado, intitulava-se despudoradamente “Comédias para se ler na escola” – e não “Comédias para ler na escola”, como os tradicionalistas dizem ser obrigatório.
Isso não nos autoriza a cair no extremo oposto, como Bagno passa perto de fazer. Se é indiscutível que ninguém mais consegue tirar o pronome da expressão “como era de se esperar”, também é verdade que considerá-lo sempre obrigatório, tratando a forma tradicional como simples “entulho normativista” sem sustentação na língua contemporânea, deixaria de levar em conta sinais eloquentes da coexistência dos dois usos, inclusive na fala popular. Não fosse assim, já teríamos dado um jeito de copidescar uma locução de emprego amplo como “osso duro de roer”. E dificilmente aquela série cinematográfica de sucesso se chamaria “Duro de matar”.
Conclusão: estamos diante de mais uma daquelas situações ambíguas em que o falante consciente, depois de se informar, deve decidir seu próprio caminho. Aos que se irritam com isso (“falou, falou e não disse nada!”, costumam reclamar), recomendo abolir o pronome “se” e escrever “As melhores empresas para trabalhar” – pronto, não se fala mais nisso.
Mas pensar é melhor.
*

Tuesday, December 16, 2014

O enriquecimento do vocabulário aumenta a compreensão do mundo

O enriquecimento do vocabulário aumenta a compreensão do mundo
Pense em alguém com um vocabulário reduzido, suficiente apenas para viver em seu meio. Usam-se as palavras mais em função de satisfazer seus instintos primários como comer, procriar, prover o próprio sustento e dormir. São funções as quais nós todos carregamos em nossos genes. Naturalmente que a vida não é só instinto, fosse assim a humanidade ainda estaria na Idade da Pedra.
Fomos dotados de uma massa encefálica poderosa e flexível como não há exemplo na natureza; e no Universo até o momento. A flexibilidade de nosso cérebro é de tal ordem que quanto mais ele é solicitado, mais aumenta sua capacidade de processamento. Contudo, para que a resposta seja satisfatória há a necessidade de um conhecimento prévio daquilo que se quer saber. O matemático, o físico, o biólogo, ampliam seus conhecimentos à medida que avançam em seus estudos, numa demonstração de que o cérebro vai se moldando às novas demandas. Por exemplo, nos deparamos com uma questão que não está nos livros e nem na internet. O nosso cérebro então processa a questão buscando respostas relacionadas àquela indagação numa tentativa de solucionar o problema. Mas isso não acontece a frio, por assim dizer, é necessário que haja um insight um súbito clarão, como a maçã caída na cabeça de Isaac Newton, que provoque a reflexão. A Lei da Gravidade não surgiu do nada. Newton já tinha em mente os cálculos necessários para dar consistência à sua teoria. Apenas não conseguira verbalizar de modo lógico sua descoberta. A queda da maçã foi a espoleta, vamos dizer assim, que detonou a explosão que clareou sua mente para o que tinha a dizer.
O que quero explicar é que o raciocínio se especializa quanto mais se amplia o conhecimento. E para que uma tese seja verbalizada, é necessário que se tenha um sólido arcabouço teórico e, sobretudo, extenso conhecimento da língua. Sigmund Freud é mais conhecido pelo seu virtuosismo na escrita o que na psicologia é ferramenta indispensável para explicar nossos fenômenos psíquicos. Quanto mais se amplia o vocabulário, novas soluções vão se apresentando para o que antes parecia um mistério insolúvel. Conseqüentemente, as possibilidades de entendimento crescem exponencialmente colocando-nos no caminho da sabedoria. 

E quem tem um vocabulário reduzido? Como descrever suas tensões, seus impulsos, suas demandas, enfim, todo o extenso cabedal de flagelos que nos atormentam a alma? Se não se consegue descrever, não se consegue entender. Vive-se na penumbra de um mundo cinzento onde quase tudo é incompreensível e hostil. Como explicamos na introdução desse artigo, uma pessoa assim vive para satisfazer seus instintos primários. Dê-lhe uma casa, uma cesta básica e um meio de prover seu sustento e ele não quer mais nada. Um indivíduo pronto para ser manipulado atendendo a todos os pedidos de seu provedor. É assim que os políticos fidelizam seu eleitorado. E é por isso também que toda essa conversa de “conscientização” do povo redunda em fracasso.  O único modo de as pessoas se conscientizarem é através do estudo, da educação. Sem isso, somos apenas macacos guinchando na mata. 

Monday, December 15, 2014

A arte acadêmica

Pittigrilli era um escritor italiano muito popular nos anos 1950. Suas obras foram publicadas no Brasil pela antiga Editora Vecchi. Humorista ferino, contista malicioso, e um grande fazedor de frases. Ele dizia não entender por que motivo as pessoas, diante de um belo por-do-sol, exclamavam: “Que coisa linda! Parece uma pintura!” e diante da pintura de um por-do-sol diziam: “Que coisa linda! Parece de verdade!”. Nosso condicionamento visual (hábito de olhar quadros) e intelectual (assimilação semi-consciente de regras estéticas sobre o que é bonito e o que não é) cria um estilo que podemos chamar de Beleza Confortável. É um tipo de arte que não incomoda, não assusta, não desconcerta, não nos faz parar para pensar duas vezes, não nos pergunta o que achamos. Vemos uma pintura acadêmica mostrando um por-do-sol, um grupo de ninfas saltitando no bosque, uma bandeja com maçãs junto a um vaso de flores... e basta dizermos: “Que bonito!”

A Beleza Confortável é a média aritmética entre o por-do-sol que parece uma pintura e a pintura que parece um por-do-sol. É um modelo estético que se ajusta sem esforço às nossas expectativas – desde que elas sejam, é claro, intuitivas, pouco pensadas e pouco dispostas a se aprofundar no assunto. A Beleza Confortável é uma das grandes conquistas do Academicismo, aqui entendido como a arte de bordar repetições em torno do que já foi descoberto, eximindo-se ao mesmo tempo da obrigação de descobrir uma novidade, por mínima que seja.

Pittigrilli não era um semiótico, mas um conterrâneo seu que é, chamado Umberto Eco, pôs em circulação um termo muito útil, num ensaio onde ele comparava a arte nazista e o Realismo Socialista soviético, que eram iguaizinhos. Eco fala do “Academismo Especulativo”, aquele grande número “de pintores falidos, de especialistas de oleografia, de pincéis voltados à decoração de caixas de pó-de-arroz e de bombons, que encontram inesperadamente um mercado político: os hierarcas que se deliciam com os nus de fundo mitológico”. Chama-se de realismo a este tipo de arte porque as coisas pintadas não contradizem a imagem visual que temos das coisas reais – se bem que uma pessoa que conhecesse apenas as coisas, e não tivesse noções de pintura acadêmica, talvez visse nelas uma variante do jogo-dos-7-erros.

São, diz Eco, os “miseráveis pintores de fim de semana que, cientes do fato de que o Regime gosta de barcaças, serrarias, minas, colocam seus pobres e inábeis pincéis a serviço de uma deprimente e monótona paisagística”. Estes artistas se esmeram em representar “senhoras louras no banho, trabalhadores musculosos e suados, soldados com o maxilar quadrado, velhos camponeses amorosamente absortos no cultivo de alimentos, paisagens agrestes sulcadas por estradas e pontes com muitos arcos, maquetes de cidades do futuro retangulares e imponentes”. É o apogeu das formas facilmente reconhecíveis, aquelas que as ditaduras costumam convocar para conduzir suas mensagens.


Tuesday, December 09, 2014

New York Times considera genial livro de Diogo Mainardi. Veja a resenha


LIVRO-A-QUEDA-138-size-598
TITO, DIOGO, NICO E CAMPO SANTI GIOVANNI E PAOLO, DE CANALETTO – O ex-colunista de VEJA escreveu uma obra em que a grande arte emoldura a sua história individual (Ruyn Teixeira / Divulgação/VEJA)
Em outubro de 2013, quando o livro A queda – As memórias de um pai em 424 passos, de Diogo Mainardi, não ficou nem entre os três primeiros da categoria do prêmio Jabuti em que concorreu, escrevi no Facebook:
Mainardi levou o Jabuti em 1990 pelo romance ‘Malthus’, quando era apenas um escritor brilhante em início de carreira, e não o famoso (agora ex-)colunista da revista VEJA, exterminador intelectual de esquerdistas de qualquer espécie.
Dessa vez, seu melhor livro (e olha que superar o romance Contra o Brasil e as coletâneasA tapas e pontapés e Lula é minha anta não era nada fácil) estava entre os dez finalistas na categoria biografia, a qual preenche e transcende com o brilho, a densidade e o poder que as obras premiadas sobre Marighella (1º) e Getúlio (3º) jamais terão de falar aos corações de todo tipo de gente, do mundo inteiro, de diversas épocas. Mas, sendo quem é hoje, Mainardi naturalmente não tem vez no prêmio ‘Chico’.
Como disse certa vez Olavo de Carvalho: “Quando deram o prêmio Jabuti para o Bruno Tolentino, eu achei que era uma grande honra para o prêmio Jabuti.” Dar mais um prêmio para Mainardi decerto estouraria o limite de honra que a turma de Chico pode suportar.
‘A queda’ dessa gente também é para sempre.
Pois bem. De lá para cá, o livro que já ganhara matéria preciosa de Mario Sabino na VEJA em agosto de 2012 colecionou, como queríamos demonstrar, traduções e elogios pelo mundo, culminando com a esplêndida resenha publicada no domingo 9 deste mês de novembro no jornal americano The New York Times, na qual a professora da Eastern Washington University e autora do livro de memórias ‘Road Song’, Natalie Kusz, o classifica simplesmente como “genial”. Como bem tuitou Sabino, escritor e ex-redator-chefe de VEJA:
Captura de Tela 2014-11-17 às 21.00.20
Na imprensa brasileira, o máximo que saiu sobre tamanho elogio a The Fall: A Father’s Memoir in 424 Steps (na versão traduzida para o inglês por Margaret Jull Costa) foi esta mísera notinhana Folha. Nossos jornalistas, sempre tão dispostos a traduzir o noticiário contaminado de esquerdismo do NYT, ou ignoram solenemente a seção literária que redime o jornal e/ou tampouco quiseram estourar seus limites de honra - especialmente neste momento em que a militância petista acusa Mainardi de preconceito e discriminação por apontar no Manhattan Connection, após a reeleição de Dilma, que o Nordeste sempre teve um comportamento “bovino” em relação ao poder.
Ignorando que as expressões populares “curral eleitoral” e “voto de cabresto” são usadas pela mesma lógica que o termo “bovino”, como depois explicou Mainardi no programa, os deputados Henrique Fontana (PT-RS), líder do governo na Câmara, Pedro Eugênio (PT-PE), coordenador da bancada do Nordeste, Luiz Couto (PT-PB), Erika Kokay (PT-DF), Alice Portugal (PCdoB-BA) e Luciana Santos (PCdoB-PE), além do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), entraram com representação junto ao Ministério Público Federal (MPF) contra o comentarista da Globo News. Em suma: quatro petistas e duas comunistas da linha auxiliar mostrando mais uma vez por meios judiciais o gosto do partido pela intimidação e pelo “controle da mídia”, para alegria de José Dirceu - o presidiário moral cujo blog festejou a ação. É por essas e outras que Mainardi havia dito na época do lançamento de A queda:
“Só consegui, contudo, dedicar-me seriamente ao livro a partir de setembro de 2010, na volta definitiva a Veneza. Tive de renunciar à coluna em VEJA, por causa da minha cabeça limitada: sou incapaz de pensar num José Dirceu e, ao mesmo tempo, num Tintoretto. O José Dirceu emporcalha o Tintoretto”, ironizara ele, referindo-se ao pintor citado na obra.
Só falta mesmo a turma de Dirceu controlar as resenhas do NYT. Enquanto não conseguem, segue a tradução do texto de Natalie Kusz, precisa em sua frase final. Que nossos jornalistas e jurados do Jabuti deixem a invejinha de lado e aprendam como se faz.
The FallAs memórias de um pai em 424 passos
Other Press, $20.
O brasileiro Mainardi era um jornalista respeitado, morando com a mulher no Grande Canal de Veneza, quando o inconcebível aconteceu: devido a um erro médico crasso, o filho dele, Tito, nasceu com paralisia cerebral. O hospital era famoso pela quantidade de desgraças, mas os Mainardi o escolheram assim mesmo porque ficava perto de casa, por causa da arquitetura, por ficar perto de uma confeitaria de primeira – por razões comuns que, em retrospecto, fariam o pai de Tito se sentir tão culpado quanto o hospital, quanto a equipe, quanto Napoleão Bonaparte.
Napoleão? Sim, e aqui se encontra a genialidade do livro. Cada um dos 424 fragmentários apontamentos do texto exemplifica o caminho doido, ilógico que a mente escolhe de forma a se controlar ou a perder o controle. O prédio de estilo primoroso abrigava uma irmandade beneficente até Napoleão transformá-lo em hospital militar, que mais tarde tornou-se hospital público, perto do qual, ainda mais tarde, foi inaugurada uma confeitaria. Portanto, entre os muitos culpados pela paralisia cerebral do menino estão um arquiteto brilhante, Napoleão e Mainardi adorar doces.
Esse tipo de autobiografia sugere uma literatura “experimental” da mais juvenil espécie: uma repulsa por qualquer coisa que se pareça à conformidade. Na verdade, Mainardi articulou uma obra genial na melhor tradição das autobiografias, dando menos ênfase ao que aconteceu do que ao que ele (e, portanto, nós) podemos perceber por causa do que aconteceu. O que nós percebemos, no fim das contas, é a criação mental da verdade.*
* Tradução de Claudia Costa Chaves para o blog de Felipe Moura Brasil na Veja.com.
Segue o belo anúncio do livro, com os elogios recebidos pelo mundo.
The fall anúncio resenhas