Tuesday, December 30, 2014

Pais e filhos em conflito

Quem não defende a ética e a honestidade? Bradamos orgulhosos o quanto somos honestos, confiáveis e solidários. Nossos filhos dizem a mesma coisa a respeito de si mesmos evocando o exemplo dos pais, pessoas impolutas e incorruptíveis. Todavia, esse quadro róseo começa a se modificar quando há algum interesse em jogo. E quem vive desinteressadamente? Não há quem não viva em busca de atender às suas necessidades, os seus interesses. E quanto maior o prêmio em jogo, maior a ânsia em ganhá-lo, despertando em nós o desejo incontrolável de abocanhar a recompensa. Como muitos alimentam o mesmo objetivo, instaura-se a disputa com o jogo ultrapassando os limites da ética, quanto mais acirrada vai se tornando. O processo vai se afunilando e trazendo a tona o espírito selvagem da guerra, meio adormecido em nossa memória ancestral.  A sociedade civiliza-se, mas os instintos primários estão ali à espreita, prontos para vir a tona a um sinal de alerta.

Racionalmente queremos agir com espírito ético, desinteressado e altruísta. Ocorre que agimos de acordo com nossas emoções, vale dizer, irracionalmente. Somos guiados por nossas crenças, por nossos desejos, por aquilo que abala nossos corações, por mais absurda que seja essa motivação.

Todos os valores foram postos em xeque quando os meninos passaram no vestibular e ingressaram na faculdade. A princípio aquilo que todos os pais e filhos almejam como o ápice da carreira estudantil, mostrou-se com o tempo, um cavalo de tróia. As faculdades, com raríssimas exceções, foram transformadas pelo governo em centros de doutrinação marxista. Confiávamos, todavia, nos valores democráticos a eles transmitidos, pois, como se sabe, todo regime marxista é ditatorial como demonstram os países que abraçaram essa ideologia. Eles resistiriam, pensávamos nós. Mas não contávamos com a poderosa influência do grupo ao qual foram inseridos.

Muito de nossos valores são influenciados pelo meio onde vivemos. E o grupo majoritário é quem impõe a base comportamental de seus integrantes. Poucos resistem já que o ser humano é um animal gregário e quer ser bem aceito no rebanho. Como uma cabeça jovem ainda em formação poderia resistir a uma doutrinação maciça a qual são submetidos na faculdade? Neófitos no ambiente acadêmico, mal se dão conta que estão sendo manipulados para engrossar as fileiras do partido dominante hoje na política brasileira. Com essa estratégia, o PT vai completando 16 anos no poder.

E todo aquele edifício laboriosamente construído nos valores da ética, da honestidade e na livre expressão do pensamento, virtudes outrora tão decantadas foram ruindo assim que o ministro do STF Joaquim Barbosa começou a atuar no julgamento do mensalão. Com enorme desgosto vimos nossos garotos atacarem a honra, a decência, a integridade, enfim, todo o cabedal de iniqüidades que foram insuflados pelo governo de plantão em sua tarefa de formação da militância obediente ao sinal de comando do comitê central do partido. Depois veio o Petrolão e nossos filhos, aqueles pimpolhos cheios de ideais nobres e meritórios, tão orgulhosos da honestidade exemplarmente repassada por seus pais passaram a chafurdar gostosamente no lamaçal, como típicos militantes petistas que são. E diante das provas cabais da roubalheira bradam enfezados: “todos roubam, não escapa ninguém.”

De repente papai e mamãe, muito mais o papai vez que mamãe não quer saber de política, viraram figuras obsoletas, retrógradas, burgueses desprezíveis. O papi assinante da Veja então tem de ser encaminhado para o limbo onde sua voz não seja ouvida, para que não seja motivo de vergonha diante do grupo de militantes. E o papi constata que ser velho é ser irrelevante. Se manifestar um pouco que seja, algum sintoma de senilidade, real ou não, será levado ao asilo. Com profundo desgosto constata que os papéis foram invertidos; em vez de se orgulhar da educação dada aos filhos, eles é que tem motivos ou não de se orgulhar dos pais que têm, segundo critérios por eles impostos.
Por que o papi insiste em falar de política? Seria tão bom se ficasse quietinho acessando a internet, assistindo seus filmes, lendo seus livros, bebendo sua cervejinha com os amigos. Será que ele nunca vai ceder? Assim não vai dar.






Thursday, December 18, 2014

69 doses de Shakespeare





Publicado no Brasil pela editora Sextante, “Shakespeare Para Apaixonados” é um pequeno guia que reúne aforismos e citações do poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare. No livro, cada capítulo é iniciado por uma citação de Shakespeare refletindo sobre ciúme, paixão, romance, insegurança, desejo e amizade, seguido de uma interpretação atual feita por Allan Percy, autor da compilação.
Considerado maior escritor de língua inglesa e o mais influente dramaturgo da história, William Shakespeare nasceu em 23 de abril de 1564, na pequena cidade inglesa de Stratford-Avon. Terceiro filho de um rico comerciante, pouco se sabe de sua infância e juventude, mas especula-se que tenha frequentado a escola primária Rei Edward VI, na qual teria aprendido literatura e latim.
Em 1582, aos 18 anos, casou-se com Anne Hathaway. O casal teve uma filha, Susanna, e dois anos depois, os gêmeos Hamnet e Judith. Não se sabe ao certo quando Shakespeare começou a escrever, mas alusões contemporâneas e registros de performances mostram que várias de suas peças foram representadas em Londres a partir de 1952.
Suas obras conhecidas totalizam 38 peças, 154 sonetos, dois longos poemas narrativos, e uma centena de poemas curtos, embora biógrafos sugiram que o número exato ainda é desconhecido. É o autor mais traduzido da história e suas obras são encenadas mais do que as de qualquer outro dramaturgo. “Destacam-se pela grandeza poética da linguagem, pela profundidade filosófica e pela complexa caracterização dos personagens.” Muitos de seus textos e temas, especialmente os do teatro, permanecem vivos mais de quatro séculos depois, sendo revisitados com frequência pelo teatro, televisão, cinema e literatura. Entre suas obras mais conhecidas estão “Romeu e Julieta”, “Júlio César”, “Macbeth”, “Rei Lear”, “Otelo, o Mouro de Veneza”, “Sonho de uma Noite de Verão”, “A Megera Domada” e Hamlet, que possui uma das frases mais conhecidas da língua inglesa: To be or not to be: that’s the question (Ser ou não ser, eis a questão). Shakespeare morreu em Stratford em 23 de abril de 1616.
Neste post, reunimos os 69 aforismos, dos 72 compilados por Allan Percy.

1 — Se você não se lembra do menor sinal de loucura que cometeu por amor, você não amou.
2 — É melhor ser rei de seu silêncio do que escravo de suas palavras.
3 — Guardar algo que me ajude a lembrar de você seria admitir que posso esquecê-lo.
4 — Qualquer um pode dominar o sofrimento, exceto aquele que o sente.
5 — Nós somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos; nossa curta vida está cercada pelo sono.
6 — Minha bondade é tão ilimitada quanto o mar, e tão profundo como este é o meu amor. Quanto mais te dou, mais tenho, pois ambos são infinitos.
7 — Na amizade e no amor se é mais feliz com a ignorância do que com o saber.
8 — Tão impossível é avivar o lume com neve quanto apagar o fogo do amor com palavras.
9 — Duvides de que as estrelas sejam fogo, duvides de que o Sol se mova, duvides de que a verdade seja mentira, mas não duvides jamais de que te amo.
10 — O amor alivia, assim como o brilho do sol após a chuva.
11 — Não tenha medo da grandeza. Alguns nascem grandes, alguns obtêm grandeza, a alguns a grandeza é imposta e em outros a grandeza fica exagerada.
12 — O amor, cego que é, impede os amantes de ver as agradáveis loucuras que cometem.
13 — Não jure pela Lua, que é inconstante e muda todos os meses em sua órbita circular, a menos que o seu amor seja igualmente instável.
14 — Quanto mais te odeio, mais me persegues.
15 — Oh, amor poderoso, que às vezes faz da besta um homem, e outras, de um homem, uma besta!
16 — Tenho medo é do seu medo.
17 — O amor é uma fumaça formada pelo vapor dos suspiros. Alentado, é um fogo a brilhar nos olhos dos apaixonados. Revolto, é um mar nutrido pelas lágrimas dos amantes. Que mais será? O amor é uma loucura sensata, um fel que adoça, uma doçura que amarga.
18 — Um homem que não se alimenta de seus sonhos envelhece cedo.
19 — Nossas dúvidas são traidoras que muitas vezes nos fazem perder o bem que poderíamos ganhar.
20 — Quem muito se aproxima do Sol com asas de ouro as derrete.
21 — Com alegria e risadas, deixem as típicas rugas da velhice aparecer.
22 — Seja o que for que você pense, creio que é melhor dizê-lo com boas palavras.
23 — Minha coroa está no coração, não na minha cabeça.
24 — Não existe nada bom nem mau; é o pensamento humano que faz com que pareça de uma forma ou de outra.
25 — Em nossas loucas tentativas, renunciamos ao que somos pelo que esperamos ser.
26 — É mais fácil obter o que se deseja com um sorriso do que com a ponta de uma espada.
27 — Não suje a fonte em que matou sua sede.
28 — O amor que nos entregam se o pedimos é bom, mas o amor que nos dão sem precisarmos pedir é ainda melhor.
29 — Aos infelizes resta apenas um remédio: a esperança.
30 — Mostre-me um homem que não seja escravo das suas paixões.
31 — Os improvisos são melhores quando são preparados.
32 — A juventude, ainda que ninguém a combata, encontra em si mesma seu próprio inimigo.
33 — O aspecto exterior manifesta muitas vezes a condição interior do homem.
34 — Minhas palavras sobem voando, meus pensamentos ficam aqui embaixo; palavras sem pensamentos nunca chegam ao céu.
35 — Se dois montam num cavalo, um deve ir atrás.
36 — É um amor bem pobre aquele que se pode medir.
37 — Em um minuto há muitos dias.
38 — A fortuna chega em alguns barcos que não são guiados.
39 — Ninguém admira a pressa, a não ser o negligente.
40 — O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui.
41 — Para celebrar os ritos amorosos, aos amantes basta a luz de sua própria beleza, e, como o amor é cego, o que lhes cai melhor é a noite.
42 — Nosso destino não está nas estrelas, mas em nós mesmos.
43 — Assuma uma virtude se não a tiver.
44 — O curso do amor verdadeiro nunca fluiu suavemente.
45 — Se a música é o alimento do amor, não parem de tocar.
46 — Inquieta é a cabeça que carrega uma coroa.
47 — Sabemos o que somos, mas não sabemos o que podemos ser.
48 — O lunático, o amante e o poeta são compostos tão somente de imaginação.
49 — Por você abandonei meus estudos, perdi tempo, desafiei a razão, desprezei o mundo; com fantasias minha inteligência ficou debilitada, com pensamentos se adoentou meu coração.
50 — Quando não houver nada a perder, arrisque tudo.
51 — Um sentimento moderado revela amor profundo; um excessivo indica insensatez.
52 — O amor é muito jovem para saber o que é consciência.
53 — Embora eu não seja piloto, se estivesses tão distante de mim como as praias do mais longínquo mar, te encontraria, navegando até achar esse precioso tesouro.
54 — Fale baixo ao falar de amor.
55 — Deixe-me confessar que somos dois, embora o nosso amor seja indivisível.
56 — A ti vigio, enquanto ao longe despertas, tão distante de mim e de outros, tão perto.
57 — Preciso saber de você a cada dia e a cada hora!
58 — Dispomos da razão para conter nossos loucos impulsos, nossas ferroadas carnais, nossa luxúria desenfreada, o que creio ser surto e fruto do que chamamos de amor.
59 — Não me atrevo a oferecer o que desejo dar, tampouco a tomar o que me fará morrer, mas quanto mais procuro encobrir meu sentir, maior meu amor se mostra.
60 — Tenha cuidado com o ciúme: é um monstro de olhos verdes que debocha do alimento do qual se nutre.
61 — A ternura é o prelúdio das lágrimas. Que melhor prova de lealdade do que essa que traz o pranto aos olhos?
62 — Como um calor substitui outro calor, ou um prego pode tirar outro prego, assim a lembrança do meu antigo amor foi esquecida graças a outro amor.
63 — Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor.
64 — Entonarei minha voz grave para poder niná-los com a doçura de uma terna pomba. Rugirei como se fosse um rouxinol.
65 — Se não fosse por meu amor, o dia seria noite.
66 — Não tenho nem a melancolia do sábio, que é emulada, nem a do músico, que é fantástica, nem a do cortesão, que é orgulhosa, nem a do soldado, que é ambiciosa, nem a do jurista, que é política, nem a da dama, que é bela, nem a do amante, que é a soma de todas elas.
67 — Pobres são aqueles que carecem de paciência!
68 — Falar não é fazer, por mais que haja uma boa intenção. As palavras não são fatos.
69 — A Idade de Ouro está diante de nós, não atrás.

Wednesday, December 17, 2014

"Um lugar bom de viver" - ou "para se viver"?


'BH é a melhor capital para (se?) viver': esqueça o bairrismo, a dúvida é gramatical
‘BH é a melhor capital para (se?) viver’: esqueça o bairrismo, a dúvida é gramatical

“Prezado Sérgio: por favor, desfaça uma dúvida que sempre me assalta. O que é o certo: ‘Belo Horizonte é a melhor capital para se viver’ ou ‘Belo Horizonte é a melhor capital para viver’? O mesmo se dá em: ‘As dez melhores empresas para se trabalhar’ ou ‘As dez melhores empresas para trabalhar’? Obrigado.” (Hélvio Brito)
A dúvida de Hélvio nos lança num fogo cruzado dos mais interessantes, entre a velha gramática normativa e a nova linguística.
Segundo a gramática normativa, dedicada à perpetuação de um sistema de regras fixado há tempos e com ambição de validade para todo o universo da lusofonia, a única construção correta nesses casos é aquela sem o pronome “se”.
Portanto, para usar a língua-padrão e se pôr a salvo de críticas conservadoras, o falante deve optar por “Belo Horizonte é a melhor capital para viver” (o bairrismo de Hélvio merece debate à parte, claro) e “As dez melhores empresas para trabalhar”. O argumento é o de que o verbo no infinitivo já é impessoal, dispensando assim o reforço da indeterminação do sujeito representado pelo pronome “se”.
A linguística, mais interessada em flagrar e compreender as mudanças na língua enquanto elas inevitavelmente ocorrem, conta uma história diferente. Com olhar atento ao que as pessoas de fato falam (e não só as que “falam errado”, como sugere uma visão preconceituosa, mas também aquelas com alto nível de educação formal), mostra que no português brasileiro, inclusive entre falantes cultos, faz tempo que as construções com o “se” antes do verbo no infinitivo são consideradas normais.
Em seu livro “Português ou brasileiro” – uma prova de que a argumentação embasada lhe cai melhor do que o ativismo político simplista em que às vezes se perde –, o linguista Marcos Bagno colhe na imprensa e na literatura (de Clarice Lispector) fartos exemplos do uso do “se” antes de verbo no infinitivo para concluir que, “na sintaxe brasileira, aumenta progressivamente a tendência a não se deixar nenhum verbo sozinho, desacompanhado de seu sujeito, mesmo quando esse verbo é um infinitivo tradicionalmente classificado de impessoal”.
A conclusão me parece perspicaz e ajuda a entender por que uma antologia de nosso maior cronista vivo, Luis Fernando Verissimo, organizada e lançada em 2001 por uma futura integrante da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado, intitulava-se despudoradamente “Comédias para se ler na escola” – e não “Comédias para ler na escola”, como os tradicionalistas dizem ser obrigatório.
Isso não nos autoriza a cair no extremo oposto, como Bagno passa perto de fazer. Se é indiscutível que ninguém mais consegue tirar o pronome da expressão “como era de se esperar”, também é verdade que considerá-lo sempre obrigatório, tratando a forma tradicional como simples “entulho normativista” sem sustentação na língua contemporânea, deixaria de levar em conta sinais eloquentes da coexistência dos dois usos, inclusive na fala popular. Não fosse assim, já teríamos dado um jeito de copidescar uma locução de emprego amplo como “osso duro de roer”. E dificilmente aquela série cinematográfica de sucesso se chamaria “Duro de matar”.
Conclusão: estamos diante de mais uma daquelas situações ambíguas em que o falante consciente, depois de se informar, deve decidir seu próprio caminho. Aos que se irritam com isso (“falou, falou e não disse nada!”, costumam reclamar), recomendo abolir o pronome “se” e escrever “As melhores empresas para trabalhar” – pronto, não se fala mais nisso.
Mas pensar é melhor.
*

Tuesday, December 16, 2014

O enriquecimento do vocabulário aumenta a compreensão do mundo

O enriquecimento do vocabulário aumenta a compreensão do mundo
Pense em alguém com um vocabulário reduzido, suficiente apenas para viver em seu meio. Usam-se as palavras mais em função de satisfazer seus instintos primários como comer, procriar, prover o próprio sustento e dormir. São funções as quais nós todos carregamos em nossos genes. Naturalmente que a vida não é só instinto, fosse assim a humanidade ainda estaria na Idade da Pedra.
Fomos dotados de uma massa encefálica poderosa e flexível como não há exemplo na natureza; e no Universo até o momento. A flexibilidade de nosso cérebro é de tal ordem que quanto mais ele é solicitado, mais aumenta sua capacidade de processamento. Contudo, para que a resposta seja satisfatória há a necessidade de um conhecimento prévio daquilo que se quer saber. O matemático, o físico, o biólogo, ampliam seus conhecimentos à medida que avançam em seus estudos, numa demonstração de que o cérebro vai se moldando às novas demandas. Por exemplo, nos deparamos com uma questão que não está nos livros e nem na internet. O nosso cérebro então processa a questão buscando respostas relacionadas àquela indagação numa tentativa de solucionar o problema. Mas isso não acontece a frio, por assim dizer, é necessário que haja um insight um súbito clarão, como a maçã caída na cabeça de Isaac Newton, que provoque a reflexão. A Lei da Gravidade não surgiu do nada. Newton já tinha em mente os cálculos necessários para dar consistência à sua teoria. Apenas não conseguira verbalizar de modo lógico sua descoberta. A queda da maçã foi a espoleta, vamos dizer assim, que detonou a explosão que clareou sua mente para o que tinha a dizer.
O que quero explicar é que o raciocínio se especializa quanto mais se amplia o conhecimento. E para que uma tese seja verbalizada, é necessário que se tenha um sólido arcabouço teórico e, sobretudo, extenso conhecimento da língua. Sigmund Freud é mais conhecido pelo seu virtuosismo na escrita o que na psicologia é ferramenta indispensável para explicar nossos fenômenos psíquicos. Quanto mais se amplia o vocabulário, novas soluções vão se apresentando para o que antes parecia um mistério insolúvel. Conseqüentemente, as possibilidades de entendimento crescem exponencialmente colocando-nos no caminho da sabedoria. 

E quem tem um vocabulário reduzido? Como descrever suas tensões, seus impulsos, suas demandas, enfim, todo o extenso cabedal de flagelos que nos atormentam a alma? Se não se consegue descrever, não se consegue entender. Vive-se na penumbra de um mundo cinzento onde quase tudo é incompreensível e hostil. Como explicamos na introdução desse artigo, uma pessoa assim vive para satisfazer seus instintos primários. Dê-lhe uma casa, uma cesta básica e um meio de prover seu sustento e ele não quer mais nada. Um indivíduo pronto para ser manipulado atendendo a todos os pedidos de seu provedor. É assim que os políticos fidelizam seu eleitorado. E é por isso também que toda essa conversa de “conscientização” do povo redunda em fracasso.  O único modo de as pessoas se conscientizarem é através do estudo, da educação. Sem isso, somos apenas macacos guinchando na mata. 

Monday, December 15, 2014

A arte acadêmica

Pittigrilli era um escritor italiano muito popular nos anos 1950. Suas obras foram publicadas no Brasil pela antiga Editora Vecchi. Humorista ferino, contista malicioso, e um grande fazedor de frases. Ele dizia não entender por que motivo as pessoas, diante de um belo por-do-sol, exclamavam: “Que coisa linda! Parece uma pintura!” e diante da pintura de um por-do-sol diziam: “Que coisa linda! Parece de verdade!”. Nosso condicionamento visual (hábito de olhar quadros) e intelectual (assimilação semi-consciente de regras estéticas sobre o que é bonito e o que não é) cria um estilo que podemos chamar de Beleza Confortável. É um tipo de arte que não incomoda, não assusta, não desconcerta, não nos faz parar para pensar duas vezes, não nos pergunta o que achamos. Vemos uma pintura acadêmica mostrando um por-do-sol, um grupo de ninfas saltitando no bosque, uma bandeja com maçãs junto a um vaso de flores... e basta dizermos: “Que bonito!”

A Beleza Confortável é a média aritmética entre o por-do-sol que parece uma pintura e a pintura que parece um por-do-sol. É um modelo estético que se ajusta sem esforço às nossas expectativas – desde que elas sejam, é claro, intuitivas, pouco pensadas e pouco dispostas a se aprofundar no assunto. A Beleza Confortável é uma das grandes conquistas do Academicismo, aqui entendido como a arte de bordar repetições em torno do que já foi descoberto, eximindo-se ao mesmo tempo da obrigação de descobrir uma novidade, por mínima que seja.

Pittigrilli não era um semiótico, mas um conterrâneo seu que é, chamado Umberto Eco, pôs em circulação um termo muito útil, num ensaio onde ele comparava a arte nazista e o Realismo Socialista soviético, que eram iguaizinhos. Eco fala do “Academismo Especulativo”, aquele grande número “de pintores falidos, de especialistas de oleografia, de pincéis voltados à decoração de caixas de pó-de-arroz e de bombons, que encontram inesperadamente um mercado político: os hierarcas que se deliciam com os nus de fundo mitológico”. Chama-se de realismo a este tipo de arte porque as coisas pintadas não contradizem a imagem visual que temos das coisas reais – se bem que uma pessoa que conhecesse apenas as coisas, e não tivesse noções de pintura acadêmica, talvez visse nelas uma variante do jogo-dos-7-erros.

São, diz Eco, os “miseráveis pintores de fim de semana que, cientes do fato de que o Regime gosta de barcaças, serrarias, minas, colocam seus pobres e inábeis pincéis a serviço de uma deprimente e monótona paisagística”. Estes artistas se esmeram em representar “senhoras louras no banho, trabalhadores musculosos e suados, soldados com o maxilar quadrado, velhos camponeses amorosamente absortos no cultivo de alimentos, paisagens agrestes sulcadas por estradas e pontes com muitos arcos, maquetes de cidades do futuro retangulares e imponentes”. É o apogeu das formas facilmente reconhecíveis, aquelas que as ditaduras costumam convocar para conduzir suas mensagens.


Tuesday, December 09, 2014

New York Times considera genial livro de Diogo Mainardi. Veja a resenha


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TITO, DIOGO, NICO E CAMPO SANTI GIOVANNI E PAOLO, DE CANALETTO – O ex-colunista de VEJA escreveu uma obra em que a grande arte emoldura a sua história individual (Ruyn Teixeira / Divulgação/VEJA)
Em outubro de 2013, quando o livro A queda – As memórias de um pai em 424 passos, de Diogo Mainardi, não ficou nem entre os três primeiros da categoria do prêmio Jabuti em que concorreu, escrevi no Facebook:
Mainardi levou o Jabuti em 1990 pelo romance ‘Malthus’, quando era apenas um escritor brilhante em início de carreira, e não o famoso (agora ex-)colunista da revista VEJA, exterminador intelectual de esquerdistas de qualquer espécie.
Dessa vez, seu melhor livro (e olha que superar o romance Contra o Brasil e as coletâneasA tapas e pontapés e Lula é minha anta não era nada fácil) estava entre os dez finalistas na categoria biografia, a qual preenche e transcende com o brilho, a densidade e o poder que as obras premiadas sobre Marighella (1º) e Getúlio (3º) jamais terão de falar aos corações de todo tipo de gente, do mundo inteiro, de diversas épocas. Mas, sendo quem é hoje, Mainardi naturalmente não tem vez no prêmio ‘Chico’.
Como disse certa vez Olavo de Carvalho: “Quando deram o prêmio Jabuti para o Bruno Tolentino, eu achei que era uma grande honra para o prêmio Jabuti.” Dar mais um prêmio para Mainardi decerto estouraria o limite de honra que a turma de Chico pode suportar.
‘A queda’ dessa gente também é para sempre.
Pois bem. De lá para cá, o livro que já ganhara matéria preciosa de Mario Sabino na VEJA em agosto de 2012 colecionou, como queríamos demonstrar, traduções e elogios pelo mundo, culminando com a esplêndida resenha publicada no domingo 9 deste mês de novembro no jornal americano The New York Times, na qual a professora da Eastern Washington University e autora do livro de memórias ‘Road Song’, Natalie Kusz, o classifica simplesmente como “genial”. Como bem tuitou Sabino, escritor e ex-redator-chefe de VEJA:
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Na imprensa brasileira, o máximo que saiu sobre tamanho elogio a The Fall: A Father’s Memoir in 424 Steps (na versão traduzida para o inglês por Margaret Jull Costa) foi esta mísera notinhana Folha. Nossos jornalistas, sempre tão dispostos a traduzir o noticiário contaminado de esquerdismo do NYT, ou ignoram solenemente a seção literária que redime o jornal e/ou tampouco quiseram estourar seus limites de honra - especialmente neste momento em que a militância petista acusa Mainardi de preconceito e discriminação por apontar no Manhattan Connection, após a reeleição de Dilma, que o Nordeste sempre teve um comportamento “bovino” em relação ao poder.
Ignorando que as expressões populares “curral eleitoral” e “voto de cabresto” são usadas pela mesma lógica que o termo “bovino”, como depois explicou Mainardi no programa, os deputados Henrique Fontana (PT-RS), líder do governo na Câmara, Pedro Eugênio (PT-PE), coordenador da bancada do Nordeste, Luiz Couto (PT-PB), Erika Kokay (PT-DF), Alice Portugal (PCdoB-BA) e Luciana Santos (PCdoB-PE), além do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), entraram com representação junto ao Ministério Público Federal (MPF) contra o comentarista da Globo News. Em suma: quatro petistas e duas comunistas da linha auxiliar mostrando mais uma vez por meios judiciais o gosto do partido pela intimidação e pelo “controle da mídia”, para alegria de José Dirceu - o presidiário moral cujo blog festejou a ação. É por essas e outras que Mainardi havia dito na época do lançamento de A queda:
“Só consegui, contudo, dedicar-me seriamente ao livro a partir de setembro de 2010, na volta definitiva a Veneza. Tive de renunciar à coluna em VEJA, por causa da minha cabeça limitada: sou incapaz de pensar num José Dirceu e, ao mesmo tempo, num Tintoretto. O José Dirceu emporcalha o Tintoretto”, ironizara ele, referindo-se ao pintor citado na obra.
Só falta mesmo a turma de Dirceu controlar as resenhas do NYT. Enquanto não conseguem, segue a tradução do texto de Natalie Kusz, precisa em sua frase final. Que nossos jornalistas e jurados do Jabuti deixem a invejinha de lado e aprendam como se faz.
The FallAs memórias de um pai em 424 passos
Other Press, $20.
O brasileiro Mainardi era um jornalista respeitado, morando com a mulher no Grande Canal de Veneza, quando o inconcebível aconteceu: devido a um erro médico crasso, o filho dele, Tito, nasceu com paralisia cerebral. O hospital era famoso pela quantidade de desgraças, mas os Mainardi o escolheram assim mesmo porque ficava perto de casa, por causa da arquitetura, por ficar perto de uma confeitaria de primeira – por razões comuns que, em retrospecto, fariam o pai de Tito se sentir tão culpado quanto o hospital, quanto a equipe, quanto Napoleão Bonaparte.
Napoleão? Sim, e aqui se encontra a genialidade do livro. Cada um dos 424 fragmentários apontamentos do texto exemplifica o caminho doido, ilógico que a mente escolhe de forma a se controlar ou a perder o controle. O prédio de estilo primoroso abrigava uma irmandade beneficente até Napoleão transformá-lo em hospital militar, que mais tarde tornou-se hospital público, perto do qual, ainda mais tarde, foi inaugurada uma confeitaria. Portanto, entre os muitos culpados pela paralisia cerebral do menino estão um arquiteto brilhante, Napoleão e Mainardi adorar doces.
Esse tipo de autobiografia sugere uma literatura “experimental” da mais juvenil espécie: uma repulsa por qualquer coisa que se pareça à conformidade. Na verdade, Mainardi articulou uma obra genial na melhor tradição das autobiografias, dando menos ênfase ao que aconteceu do que ao que ele (e, portanto, nós) podemos perceber por causa do que aconteceu. O que nós percebemos, no fim das contas, é a criação mental da verdade.*
* Tradução de Claudia Costa Chaves para o blog de Felipe Moura Brasil na Veja.com.
Segue o belo anúncio do livro, com os elogios recebidos pelo mundo.
The fall anúncio resenhas

Monday, December 08, 2014

A tragedia das cidadezinhas rurais

Ano passado o Nobel de literatura foi para a escritora Alice Munro, 82 anos. Ela não é americana, e sim canadense (é a primeira vez que um escritor do Canadá recebe a láurea – descontando Saul Bellow, naturalizado americano). Ela é uma autora “insular”, devotada a um universo bem delimitado: as áreas rurais do Canadá, com seus “rios largos e pequenas cidades”, como definiu o atual secretário da academia, Peter Englund. Não há nada de estreito no modo como ela explora esse mundo. Com sua narrativa só na aparência delicada, Alice mergulha fundo nas frustrações e mesquinharias de seus personagens, sobretudo das mulheres. É uma cultora exclusiva do conto – tem quatro coletâneas publicadas no Brasil – e certa vez disse não entender bem o romance, gênero ao qual faltaria “tensão”. “Eu procuro um momento explosivo e reúno tudo em torno dele”, disse. Eis aí uma definição eficiente da difícil arte do conto.

Deixando de lado a idade da escritora, fato que pode gerar inúmeros comentários positivistas sobre manter-se sempre em atividade, o fato é que uma pequena comunidade rural pode conter todo o universo das intricadas relações humanas. Não se pense contudo, que esse universo tem de ser edulcorado, com personagens às voltas com suas mesquinharias e frustrações, depois superadas com fartas doses de tolerância e compaixão. Isso não existe na vida real e quando um autor recorre a esse expediente, é porque um sinal de alerta toca em seu cérebro lembrando-o que faz parte da comunidade e ela não ficaria feliz em saber-se retratada de modo nada romântico. Todos se acham os modelos exemplares em suas respectivas áreas de convivência, e seria um choque tomar conhecimento de uma vida nem um pouco edificante. Todos praticam suas pequenas crueldades diárias e podem se tornar bastantes agressivos quando confrontados com essa realidade.


Um núcleo social sobrevive às custas de muita hipocrisia, comportando-se em público, exatamente como se espera que um cidadão de bem o faça. Os cidadãos frequentam as missas dominicais, os cultos, as festividades cívicas; se alistam nas entidades sociais de cunho filantrópico;professam uma fé inquebrantável no futuro do país e elogiam entusiasticamente os homens públicos. Tudo muito bonito, tudo muito certinho. Contudo, na delegacia os presos são torturados e espancados; os hospitais são fechados e outros são locais de alto risco à vida com sua crônica falta de recursos e má administração; nos bairros da periferia, crianças são levadas ao consumo de crack e à prostituição. 
Jornais e emissoras de rádio de propriedade de políticos, falam bem de todo mundo, elogiando a “profícua administração municipal” e a luta incansável do deputado representante do município, enquanto verbas federais e estaduais são desviadas com inteira conivência dos vereadores; a unidade da UPA foi construída fora dos padrões exigidos e não se sabe quando vai funcionar, se é que vai funcionar.  Esqueleto de ferro onde deveria ser construído um Ginásio de Esportes está exposto à ferrugem e ao desgaste, atestando o escandaloso desvio de verbas sem que nunca se instalasse uma CPI para punir o responsável, ou os responsáveis. Grandes áreas de terra são tomadas de seus legítimos donos sem que nenhuma queixa seja registrada. Grandes interesses financeiros expulsam de suas terras pequenos proprietários que não sabem a quem recorrer.Riquezas súbitas se fazem bastando para isso ser nomeado para algum cargo público que possibilite o manejo de verbas federais e estaduais. Todos esses fatos são de amplo conhecimento, mas todos fingem viver no melhor dos mundos, saudando as belezas naturais de uma terra onde tudo que se planta germina e gera riqueza. Quem se atrever a dizer o contrário, acabará recebendo alguns avisos de que sua integridade física correrá sérios riscos. Melhor ficar calado e fingir que vivemos no melhor dos mundos. Como válvula de escape e como vingança, pratica-se o já conhecidíssimo esporte da fofoca onde todos são vítimas e algozes. Essa é a tragédia de uma cidadezinha encravada nos confins do sertão desse nosso vasto Brasil

Friday, December 05, 2014

I want to be alone

         Eu tive um grande amigo. Não, não é desses amigos de cachaça, nem companheiro de trabalho e nem desse amigo recente que a gente vê de vez em quando. Chamava-se Gerson e era meu primo. Desde pequenos que nós nos conhecíamos. A princípio, uma amizade comum, de fazer traquinagens na Vila Camargo em São Miguel Paulista que era o lugar onde  morávamos em São Paulo. Depois percebi que aquele garoto tinha uma curiosidade obsessiva, tudo querendo saber e dando opinião. Ele sempre foi opinativo, jamais aceitando passivamente os argumentos que lhe apresentavam. E começamos nossa maratona de descobertas. A princípio tornei-me seu mestre, depois fui dispensado desta função e acabamos sendo mestre e discípulo simultaneamente um do outro. Isso não foi o resultado de algum acordo, como a princípio pode-se pensar. Seria um modo de se relacionar bastante artificial, como fazem as pessoas que estão adequadas em seus papéis sociais. Detestávamos qualquer tipo de artificialidade, por isso éramos considerados rebeldes e combatíamos na medida do possível o que não nos servia na sociedade. Queríamos viver nossas vidas pouco nos importando com os possíveis comentários. Aliás, os comentários negativos criavam em nós mais energia e vontade de transgredir.
            Nessa época terrível de Paulos Coelhos, Laires Ribeiros, Lauros Trevisans, de astrólogos, tarólogos, espiritualistas e toda sorte de charlatães, não é considerado bom para a saúde ter ódio. “Não odeiem”, dizem eles, “amem o seu próximo, sejam bons vizinhos”, “tenham pensamento positivo”. Dou uma banana para todos esses arautos do bom mocismo pois estão legislando em causa própria, apavorados que ficam com a possibilidade de serem desmascarados. Nada como cultivar um bom ódio contra a mediocridade, contra os farsantes, contra o comportamento politicamente correto. Nós, eu e o Gerseno Véio tínhamos um ódio santo contra todo tipo de empulhação. Na verdade o Gerseno me salvou pois eu tinha uma tendência irreprimível de ser um bom moço e acabaria fatalmente casando cedo, criando uma penca de filhos e mergulhando inevitavelmente no rancor e frustração provocados por uma vida sem alegria.
            Lembro-me de minha primeira paixão! Como foi avassaladora, maravilhosa e frustrante como só uma paixão adolescente pode ser. E o Gerseno participou de tudo pois foi testemunha de meus sofrimentos e alegrias, sendo meu aliado nos propósitos que eu pretendia atingir com o objeto de minha paixão. A tempestade passou como tudo passa nesta vida. Restou uma saudade branda que alegra os meus dias. Depois veio outras e mais outras como é de praxe em nossa natureza . Mais tarde eu vim para a Bahia e o Gerseno ficou lá. E eu o visitava e ele me visitava para que não perdêssemos o contato. Ele pintava e esculpia e eu escrevia e ambos respeitávamos a arte um do outro. Brigamos muito: um com o outro e contra tudo e contra todos e digo com toda convicção, que foi exatamente esse espírito guerreiro que fez nossa arte crescer. Nada como uma boa batalha para fazer o ser humano adquirir estatura moral e artística.
            Falando assim, até parece essas elegias piegas que as pessoas fazem para seus amigos mortos. Odeio elegias mas não posso de deixar de falar do meu irmão Gerseno Véio. É bom que se diga que ele me chamava de Laureno Véio. E por que isso? Por causa de John Lennon de quem éramos fãs ardorosos, daí o apelido. Mas ele gostava também de Mick Jagger, de Frank Zappa de Bob Dylan e outros astros do rock rejeitados pelos mauricinhos. Sua aparência desleixada e transgressora causava repulsa nas pessoas que eram ligadas a mim. Nem por isso deixei de ser solidário com ele. Quem não gostasse que tomasse outro rumo, incluindo aí amigos  e esposas. Ele não vivia por aí caindo pelas tabelas. Era bastante lúcido e as drogas não o derrotaram. Nossos preconceitos eram poucos, considerávamos que o importante era agir, sair do marasmo, da pasmaceira,  rejeitar “ambientes sadios” e pessoas de “boa reputação”. Podemos até frequentar ambientes sadios e sermos amigos de pessoas de boa reputação. Podemos até ser cidadãos exemplares cumprindo nossos deveres. Mas o espírito tem de ser livre, a imaginação tem de voar buscando  horizontes sem limites. Nesse sentido ele simbolizava o irracional, a entrega sem reservas, a imaginação voando livre e criadora, enquanto eu era o racional,  a mente analítica que mantinha a imaginação sob estrito controle. Mas ambos tínhamos o mesmo sonho: criar uma arte que fosse livre, pintar e escrever sem o controle da mente, deixando o pincel e a caneta correrem soltos sobre a tela e o papel. Por isso éramos loucos por Salvador Dali, o pintor surrealista e Lautreamont e seu livro “Os cantos de Maldoror”.
            O universo de nossos interesses era amplo: Carlos Castanheda, Jackson Pollok, Clarice Lispector, cogumelos alucinógenos, a magia das pedras, numerologia, astrologia, tarô, I Ching, sonhos, James Dean, blues, rap, heavy metal, Black Sabatt, Led Zeppelin, Velvet Underground, cartuns,  Robert Crumb, sexo, palavras, imagens, cordel, natureza selvagem, Lampião, Fernando Pessoa, Jimmi Hendrix, cangaço, cinema, Jethro Tull, José Celso Martinez Correia, Stepenwolf, Luiz Gonzaga, Dylan Thomas, música clássica... É compreensível porque as esposas tenham ciúmes das amizades de seus maridos. No casamento  há deveres e obrigações que trazem uma enorme carga de ressentimentos. Há linhas demarcadas que não podem ser transpostas. O relacionamento então torna-se uma farsa com os cuidados que se toma para não se cometer erros que possam  abalar a união conjugal. A(o) amante, é um recurso para se tentar escapar desta camisa-de-força. E o amigo é a permissão para sermos o que realmente somos. Mas, assim como no casamento, para que a amizade mantenha-se firme e forte há necessidade de conflitos de vez em quando. Afinal, são duas pessoas com personalidade própria e cada qual tem sua opinião. É natural, portanto, que haja divergências. A vantagem da amizade é que não se vive junto. Viver junto é muito desgastante como sabem todos os casais.
            Não sinto muita falta do Gerseno. Não sinto porque ele está incorporado em mim. Agora pouco assisti o filme dos Rolling Stones, Gimme Shelter, onde eles se apresentaram no Madison Square Garden e em Altamont nos Estados Unidos em 1969. O concerto em Altamont foi o fim do sonho de Woodstock, vez que os Hell Angels assassinaram um negro em frente ao palco, além de muito espancamento e outras mortes. O Gerseno iria gostar pois era fã dos Stones. Lembro-me que enquanto eu curtia Let it be dos Beatles ele curtia Let it Bled dos Stones. Jamais curti Their Satanic Majestic Request e The Beegars Banquet, os discos malditos dos Stones. Deles gostei de Get yer ya-ya’s out, a apresentação ao vivo do Madison Square Garden e Altamont. O Gerseno iria adorar esse filme. Talvez eu o tenha comprado por sugestão dele. Como disse, ele agora está incorporado em mim. O que me torna muito mais completo.
            O Gerseno participou de minha existência durante 40 anos. Ele sabia tudo sobre mim. Mais do que meus pais, mais do que as mulheres com quem convivi, mais do que outros amigos, mais do que qualquer outra pessoa. Ele era o guardião dos meus segredos, assim como eu era dos dele. Não digo que tudo foi transparente. Ninguém sabe sobre a totalidade da vida de outra pessoa. Afinal, é necessário haver um certo grau de privacidade, de resguardo, até para o bem de nossa sanidade mental. Há necessidade de haver em nós, um recanto de exclusiva propriedade nossa. Algo que só nós sabemos e conhecemos e ninguém mais. É exatamente essa particularidade que nos dá a sensação de liberdade, de independência. Mas eu e o Gerseno tínhamos bem poucos segredos um para o outro. Agora, com sua morte, como fico? Estarei só, irremediavelmente só e sem ninguém a quem dizer as coisas? Ficarei perdido, sem a possibilidade de aferir meus conhecimentos, de compartilhar minhas novas descobertas? O amor é uma palavra que perdeu o sentido ou estou sabendo do seu exato significado? Guardo em mim algum segredo que gostaria de dizer ao Gerseno ou não tenho mais nada a dizer? Isso tudo saberei daqui para a frente.
            Desde já, contudo, sinto que possuo muito mais força, muito mais criatividade. Os horizontes se ampliam e não há ninguém mais para contestar o que vivi ou deixei de viver. Meu passado me pertence, o que me leva a concluir que minha vida me pertence. Sou o único guardião dos meus segredos o que me dá amplas possibilidades de criar em cima disso.
            Quando Greta Garbo abandonou a carreira artística, ela disse: “I want to be alone” (quero ficar só). Como J.D. Salinger, como Thomas Pinchon.  Eu também  want to be alone. Contudo, a imbecilidade humana não me atormenta pois posso tolerar uma ampla variedade de comportamentos e personalidades. O importante, ou o segredo, é se resguardar mantendo nossa alma longe, muito longe do vasto oceano da barbárie que está tomando conta de tudo.


                                                                                                                                         

Thursday, December 04, 2014

A emoção fala mais alto

A economia comportamental se apóia na psicologia para estudar como as pessoas agem e reagem diante das mais diversas situações da vida. Seus adeptos revolucionaram a teoria econômica ao atribuir à emoção e à irracionalidade peso preponderante na tomada de decisões, processo que se acreditava ser quase sempre dominado pela razão. Um dos grandes expoentes dessa corrente, o israelense Dan Ariely, 47 anos, é conhecido por tê-la popularizado na academia e fora dela, por meio de suas mais de 1 000 pesquisas sobre consumo, finanças e tantas outras áreas em que empregou o método científico para dissecar os mecanismos das escolhas humanas. Formado em psicologia, doutro em economia pelo Instituto de Massachusetts (MIT)e autor de vários Best-sellers, Ariely mantém ainda um blog em que trata de forma palatável aos leigos de temas espinhosos, como a desonestidade e a mentira.
A seguir algumas das conclusões de suas pesquisas.

NÓS, SERES IRRACIONAIS. Mesmo pessoas mais escolarizadas e supostamente cientes de seus atos tendem a se guiar pela busca da recompensa imediata, sem avaliar os prejuízos futuros de suas escolhas, ainda que elas se revistam de um certo verniz de razão. A irracionalidade governa a maior parte de nossa vida. Essa constatação rompe uma lógica que perdurou por muito tempo, aquela segundo a qual o homem seria predominantemente racional, idéia sobre a qual os economistas pavimentaram suas pesquisas e modelos. Erra quem insiste nessa tecla. As pesquisas mostram que é o curto e não o longo prazo que impera na hora de optar. Comer demais, gastar em vez de poupar, mandar mensagens de texto ao volante são atitudes corriqueiras despregadas da racionalidade e fincadas no terreno da satisfação instantânea. A pergunta “Você prefere perder um vôo por dois minutos ou por duas horas?”, a resposta unânime é; duas horas. Por quê? Porque, por dois minutos, a pessoa acredita até o fim que vai conseguir pegar o vôo e sua frustração será bem maior. É uma explicação totalmente irracional. Mas quem disse que o ser humano é racional?

QUANTO MAIS CARO, MELHOR. O cérebro trabalha o tempo todo tentando antecipar o futuro e nos preparando para ele. Se o preço de um produto é alto, as expectativas sobre o grau de satisfação que trará se elevam e as chances de que de fato proporcione uma boa experiência também. Muitos estudos já foram conduzidos sobre esse mecanismo que nos faz moldar a realidade segundo o que esperamos dela. Certa vez no MIT uma pesquisa que testava a reação de pessoas doentes a placebos com dois preços, e o resultado só confirmou a regra geral; as que compraram o placebo mais caro ficaram curadas; as outras não.

EFEITO MANADA. A desonestidade é altamente contagiosa, espalha-se como praga, em efeito manada. As pessoas tendem a reproduzir mentiras e trapaças benfeitas, tentação que deriva da necessidade humana de estar sempre em vantagem sobre o vizinho. O fato de todo mundo ter seus desvios certamente serve de atenuante, como um anestésico à ética. O que se sobrepõe, de novo, é o curtíssimo prazo em detrimento do futuro; a irracionalidade no lugar da razão. As bolhas financeiras são uma boa expressão disso na economia real. Elas nascem quando os investidores percebem que outros estão ganhando dinheiro com um ativo e embarcam na onda, sem olhar com objetividade para a realidade concreta. Acrescentamos a nosso juízo um componente de excitação que vem da convicção de estar investindo em algo valioso e disputado. É como aquele restaurante com fila na porta. Todo mundo acha que é bom. Fila atrai fila.

CAUSA E CONSEQUÊNCIA  A sensação de desvantagem é um potente motor para a desonestidade. Em uma pesquisa que fizemos com alemães, os da extinta Alemanha Oriental mentiram mais do que os do lado ocidental. O motivo, concluímos, estava na frustração de expectativas: quem foi criado na lado socialista ouviu a vida promessas de um futuro melhor, que não se concretizaram. Quando houve a unificação, ficaram cara a cara com o abismo financeiro que os separava dos alemães do oeste e essa frustração alimentou a mentira. Outro estudo nosso mostrou que, qualquer que fosse a situação econômica dos participantes, sempre que um deles se convencia de que, apesar de sua capacidade e inteligência, tivera azar enquanto os outros se saiam bem, essa pessoa se tornava mais propensa a mentir e trapacear. Sentir-se prejudicado é mais uma desculpa comum para ser desonesto.


OLHO NO OUTRO A felicidade é uma questão de comparação, porque é na comparação que calculamos valores. Pensando de forma racional, o salário de alguém é melhor ou pior conforme a quantidade de bens que ele consegue comprar ou a condição de vida que dá à família. Mas não é assim que as pessoas percebem as coisas. Para saber se o que ganho é adequado, se estou feliz com meu salário, o que conta mesmo é saber quanto ganha o meu colega ao lado.