Monday, December 08, 2014

A tragedia das cidadezinhas rurais

Ano passado o Nobel de literatura foi para a escritora Alice Munro, 82 anos. Ela não é americana, e sim canadense (é a primeira vez que um escritor do Canadá recebe a láurea – descontando Saul Bellow, naturalizado americano). Ela é uma autora “insular”, devotada a um universo bem delimitado: as áreas rurais do Canadá, com seus “rios largos e pequenas cidades”, como definiu o atual secretário da academia, Peter Englund. Não há nada de estreito no modo como ela explora esse mundo. Com sua narrativa só na aparência delicada, Alice mergulha fundo nas frustrações e mesquinharias de seus personagens, sobretudo das mulheres. É uma cultora exclusiva do conto – tem quatro coletâneas publicadas no Brasil – e certa vez disse não entender bem o romance, gênero ao qual faltaria “tensão”. “Eu procuro um momento explosivo e reúno tudo em torno dele”, disse. Eis aí uma definição eficiente da difícil arte do conto.

Deixando de lado a idade da escritora, fato que pode gerar inúmeros comentários positivistas sobre manter-se sempre em atividade, o fato é que uma pequena comunidade rural pode conter todo o universo das intricadas relações humanas. Não se pense contudo, que esse universo tem de ser edulcorado, com personagens às voltas com suas mesquinharias e frustrações, depois superadas com fartas doses de tolerância e compaixão. Isso não existe na vida real e quando um autor recorre a esse expediente, é porque um sinal de alerta toca em seu cérebro lembrando-o que faz parte da comunidade e ela não ficaria feliz em saber-se retratada de modo nada romântico. Todos se acham os modelos exemplares em suas respectivas áreas de convivência, e seria um choque tomar conhecimento de uma vida nem um pouco edificante. Todos praticam suas pequenas crueldades diárias e podem se tornar bastantes agressivos quando confrontados com essa realidade.


Um núcleo social sobrevive às custas de muita hipocrisia, comportando-se em público, exatamente como se espera que um cidadão de bem o faça. Os cidadãos frequentam as missas dominicais, os cultos, as festividades cívicas; se alistam nas entidades sociais de cunho filantrópico;professam uma fé inquebrantável no futuro do país e elogiam entusiasticamente os homens públicos. Tudo muito bonito, tudo muito certinho. Contudo, na delegacia os presos são torturados e espancados; os hospitais são fechados e outros são locais de alto risco à vida com sua crônica falta de recursos e má administração; nos bairros da periferia, crianças são levadas ao consumo de crack e à prostituição. 
Jornais e emissoras de rádio de propriedade de políticos, falam bem de todo mundo, elogiando a “profícua administração municipal” e a luta incansável do deputado representante do município, enquanto verbas federais e estaduais são desviadas com inteira conivência dos vereadores; a unidade da UPA foi construída fora dos padrões exigidos e não se sabe quando vai funcionar, se é que vai funcionar.  Esqueleto de ferro onde deveria ser construído um Ginásio de Esportes está exposto à ferrugem e ao desgaste, atestando o escandaloso desvio de verbas sem que nunca se instalasse uma CPI para punir o responsável, ou os responsáveis. Grandes áreas de terra são tomadas de seus legítimos donos sem que nenhuma queixa seja registrada. Grandes interesses financeiros expulsam de suas terras pequenos proprietários que não sabem a quem recorrer.Riquezas súbitas se fazem bastando para isso ser nomeado para algum cargo público que possibilite o manejo de verbas federais e estaduais. Todos esses fatos são de amplo conhecimento, mas todos fingem viver no melhor dos mundos, saudando as belezas naturais de uma terra onde tudo que se planta germina e gera riqueza. Quem se atrever a dizer o contrário, acabará recebendo alguns avisos de que sua integridade física correrá sérios riscos. Melhor ficar calado e fingir que vivemos no melhor dos mundos. Como válvula de escape e como vingança, pratica-se o já conhecidíssimo esporte da fofoca onde todos são vítimas e algozes. Essa é a tragédia de uma cidadezinha encravada nos confins do sertão desse nosso vasto Brasil

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