Ano passado o
Nobel de literatura foi para a escritora Alice Munro, 82 anos. Ela não é
americana, e sim canadense (é a primeira vez que um escritor do Canadá recebe a
láurea – descontando Saul Bellow, naturalizado americano). Ela é uma autora
“insular”, devotada a um universo bem delimitado: as áreas rurais do Canadá, com
seus “rios largos e pequenas cidades”, como definiu o atual secretário da
academia, Peter Englund. Não há nada de estreito no modo como ela explora esse
mundo. Com sua narrativa só na aparência delicada, Alice mergulha fundo nas
frustrações e mesquinharias de seus personagens, sobretudo das mulheres. É uma
cultora exclusiva do conto – tem quatro coletâneas publicadas no Brasil – e
certa vez disse não entender bem o romance, gênero ao qual faltaria “tensão”.
“Eu procuro um momento explosivo e reúno tudo em torno dele”, disse. Eis aí uma
definição eficiente da difícil arte do conto.
Deixando de
lado a idade da escritora, fato que pode gerar inúmeros comentários
positivistas sobre manter-se sempre em atividade, o fato é que uma pequena
comunidade rural pode conter todo o universo das intricadas relações humanas. Não
se pense contudo, que esse universo tem de ser edulcorado, com personagens às
voltas com suas mesquinharias e frustrações, depois superadas com fartas doses
de tolerância e compaixão. Isso não existe na vida real e quando um autor
recorre a esse expediente, é porque um sinal de alerta toca em seu cérebro
lembrando-o que faz parte da comunidade e ela não ficaria feliz em saber-se
retratada de modo nada romântico. Todos se acham os modelos exemplares em suas
respectivas áreas de convivência, e seria um choque tomar conhecimento de uma
vida nem um pouco edificante. Todos praticam suas pequenas crueldades diárias e
podem se tornar bastantes agressivos quando confrontados com essa realidade.
Um núcleo social
sobrevive às custas de muita hipocrisia, comportando-se em público, exatamente
como se espera que um cidadão de bem o faça. Os cidadãos frequentam as missas
dominicais, os cultos, as festividades cívicas; se alistam nas entidades
sociais de cunho filantrópico;professam uma fé inquebrantável no futuro do país
e elogiam entusiasticamente os homens públicos. Tudo muito bonito, tudo muito
certinho. Contudo, na delegacia os presos são torturados e espancados; os
hospitais são fechados e outros são locais de alto risco à vida com sua crônica
falta de recursos e má administração; nos bairros da periferia, crianças são
levadas ao consumo de crack e à prostituição.
Jornais e emissoras de rádio de
propriedade de políticos, falam bem de todo mundo, elogiando a “profícua
administração municipal” e a luta incansável do deputado representante do
município, enquanto verbas federais e estaduais são desviadas com inteira
conivência dos vereadores; a unidade da UPA foi construída fora dos padrões
exigidos e não se sabe quando vai funcionar, se é que vai funcionar. Esqueleto de ferro onde deveria ser
construído um Ginásio de Esportes está exposto à ferrugem e ao desgaste,
atestando o escandaloso desvio de verbas sem que nunca se instalasse uma CPI
para punir o responsável, ou os responsáveis. Grandes áreas de terra são
tomadas de seus legítimos donos sem que nenhuma queixa seja registrada. Grandes
interesses financeiros expulsam de suas terras pequenos proprietários que não
sabem a quem recorrer.Riquezas súbitas se fazem bastando para isso ser nomeado
para algum cargo público que possibilite o manejo de verbas federais e
estaduais. Todos esses fatos são de amplo conhecimento, mas todos fingem viver
no melhor dos mundos, saudando as belezas naturais de uma terra onde tudo que se
planta germina e gera riqueza. Quem se atrever a dizer o contrário, acabará
recebendo alguns avisos de que sua integridade física correrá sérios riscos.
Melhor ficar calado e fingir que vivemos no melhor dos mundos. Como válvula de
escape e como vingança, pratica-se o já conhecidíssimo esporte da fofoca onde
todos são vítimas e algozes. Essa é a tragédia de uma cidadezinha encravada nos
confins do sertão desse nosso vasto Brasil.
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